Mais do que
um fermento tradicional, o pingo é um sistema biológico complexo formado
principalmente por bactérias láticas — como Lactococcus,
Streptococcus e Lactobacillus —
além de leveduras e outros microrganismos adaptados ao ambiente da queijaria.
Ele é obtido a partir do soro drenado do queijo após a segunda salga e adicionado
ao leite cru durante a manufatura de uma nova batelada de queijos no dia seguinte.
Essa
comunidade microbiana forma o microbioma do pingo, um ecossistema dinâmico
responsável por acidificar o leite, inibir microrganismos indesejáveis e
contribuir para o desenvolvimento de compostos que definem o sabor e o aroma do
queijo. O equilíbrio entre essas espécies é o que garante tanto a segurança
microbiológica quanto a identidade sensorial do produto final. Cada pingo
apresenta composição microbiana própria, o que levou a pesquisadora
entrevistada, Vanice Natera, a descrevê-lo como uma verdadeira “impressão
digital microbiológica” de cada fazenda.
Foi
justamente para compreender o funcionamento desse microbioma que ela e
pesquisadores colaboradores desenvolveram o trabalho “Investigating the impact of a natural whey starter culture on the
microbiological and physicochemical attributes of an artisanal cheese model”,
publicado na revista Food Research International.
O estudo foi
conduzido pela doutoranda Vanice Natera, do Programa de Pós-Graduação em
Sistemas Integrados em Alimentos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da
Universidade de São Paulo (USP), sob orientação da professora Cynthia
Jurkiewicz do Instituto Mauá de Tecnologia, durante seu mestrado naquela instituição.
Em escala laboratorial, o grupo avaliou como o pingo influencia a microbiologia e as propriedades físico-químicas de um modelo experimental que mimetiza o Queijo Minas Artesanal, com ênfase no controle de microrganismos indesejáveis durante a produção e a maturação.
Os resultados mostraram que o pingo
tem papel decisivo na redução das populações de Escherichia coli e coliformes, principalmente quando o leite usado
é de boa qualidade microbiológica. Isso ocorre porque o pingo cria um ambiente
ácido e competitivo, dominado por bactérias láticas como Streptococcus, Lactococcus e
Lactobacillus, que inibem o
crescimento de microrganismos indesejáveis. A pesquisadora explica que esse
efeito depende diretamente da qualidade do leite de origem:
“Se o leite cru tiver uma carga microbiana muito alta, o
pingo não consegue compensar. Ele potencializa um leite de boa qualidade
microbiológica, mas não corrige um leite com uma carga microbiana contaminante
muito alta, conforme mostrou o estudo.”
Em queijos feitos com menor
contaminação inicial, o pingo acelerou a redução microbiana; já em leites crus
muito contaminados, o efeito foi limitado. Segundo a pesquisadora, o próximo
passo seria investigar até que ponto, ou carga contaminante máxima, o pingo consegue
exercer efeito protetor, algo que ainda não é definido pela legislação
brasileira.
Como o pingo reflete o ambiente da
queijaria, seu manejo é determinante para a segurança e a estabilidade do
fermento.
“Se o leite apresentar boa qualidade higiênico-sanitária e for
utilizado ainda fresco, o pingo tenderá a possuir uma maior presença de
bactérias benéficas. Mas, se houver falhas de higiene, ele pode acumular
microrganismos indesejáveis e perder o equilíbrio microbiano.”
Entre os cuidados recomendados estão
coletar o pingo de queijos que fermentaram bem, armazená-lo em recipientes
limpos e exclusivos, mantê-lo refrigerado e evitar exposição prolongada à
temperatura ambiente. Quando o fermento perde acidez ou apresenta cheiro
desagradável, o ideal é reiniciá-lo a partir de um queijo saudável. A
pesquisadora resume:
“O reuso não é o vilão — o risco está no reuso sem cuidado.
Quando há higiene e atenção, o pingo se mantém ativo e seguro; sem isso, pode
se tornar um vetor de contaminação.”
O estudo também utilizou modelos
cinéticos (logístico e Weibull) para descrever o comportamento microbiano
durante a produção e a maturação dos queijos. O modelo de Weibull, que
apresentou excelente precisão (R² entre 0,959 e 0,998), mostrou que o tempo necessário
para reduzir 90% das populações de E.
coli e coliformes foi metade nos queijos produzidos com pingo.
Esses resultados podem contribuir
para revisões no tempo mínimo de maturação exigido por norma, permitindo que as
decisões sanitárias se baseiem em dados científicos reais, levando em conta a
qualidade do leite, o uso do pingo e o comportamento microbiano durante o
processo.
“O modelo de Weibull ajuda a entender quanto tempo o queijo
precisa para atingir segurança microbiológica real”,
explicou Natera.
Atualmente, a pesquisadora estuda o
comportamento do pingo na formação de compostos voláteis — substâncias
responsáveis pelo aroma e pelo sabor dos queijos artesanais. O objetivo é
compreender como a microbiota do pingo molda o perfil sensorial do queijo ao
longo da maturação.
O passo seguinte será isolar cepas
autóctones com potencial tecnológico e sensorial, o que pode abrir caminho para
o desenvolvimento de culturas regionais padronizadas, capazes de manter a
autenticidade do pingo tradicional, mas com maior previsibilidade e segurança.
Para a pesquisadora, equilibrar
tradição e controle sanitário não é um desafio, mas uma parceria:
“A ciência não vem para mudar o jeito de fazer, mas para
entender e proteger o que já existe. O saber do produtor e a validação
científica podem caminhar juntos, um fortalecendo o outro.”
O estudo reforça que o pingo é muito
mais do que um fermento natural, ele é o ponto de encontro entre tradição,
ciência e território.
Cada gota carrega uma história, uma
microbiota e um modo de fazer que transformam o queijo em algo maior que
alimento: um patrimônio cultural e biológico do Brasil.